Sobre ter e ser

Nesses últimos dias, tenho pensado bastante em como o desenvolvimento do Brasil afeta a nós, brasileiros. É óbvio que ainda há muito a ser feito, que não basta sair da linha da miséria. É óbvio que a desigualdade sócio-econômica é gritante. Mas a reflexão que quero iniciar aqui faz sentido em qualquer parte do processo, seja agora no começo, seja lá no meio. Entretanto, eu entendo que quanto mais cedo detectarmos o problema, quem sabe mais cedo também encontremos uma solução, ainda que parcial, para ele?

Tem acontecido que o brasileiro começa a ter maior poder de compra, maior acesso às ofertas do mercado. Vamos fazer uma pausa para esclarecer alguns pontos: eu sei que nem todo brasileiro tem acesso, eu sei que falta acesso às necessidades básicas da sobrevivência, como alimento e saneamento básico, eu sei que tem crianças na rua. Mas é inegável que muitos brasileiros têm sim um maior poder de compra.

O que é motivo da minha reflexão é o quanto esse poder de compra leva a uma distorção perversa, já comum em sociedades como a norte-americana: é o “ter” que vai definir as pessoas? Uma resposta simplista poderia culpar o nosso péssimo sistema de educação pública, mas eu creio firmemente que o problema vai muito além de oferecer boas escolas – talvez o acesso às boas escolas pudesse dar conta de uma parte deste problema. A questão é mais profunda, é cultural e é estrutural. Em um modelo capitalista, onde o consumo é altamente incentivado, obviamente que o ter é feito mais importante que o ser. Também podemos ficar aqui discutindo muitas horas sobre o processo de colonização do nosso país (fonte de grande parte dos males que nos aflige, decerto), da juventude do Brasil (não dá para nos comparar a países europeus, por exemplo). Também podemos vilanizar o capitalismo – que obviamente tem o seu quinhão de culpa; grande quinhão, diga-se de passagem.

Como eu sou basicamente capitalista, mas com restrições sérias; como eu ainda não conheço um modelo sustentável e que possa repôr o sistema atual, acho que não adianta a gente só culpar o modelo. Temos que pensar em como sobreviver a ele, como minimizar seus danos; como fazer com que evolua para um modelo mais humano e sustentável.

Depois dessa introdução com várias ressalvas, voltemos ao ponto: esse avanço econômico, que permite que os indivíduos possam comprar cada vez mais coisas, tem tornado muito mais importante o ter do que o ser. E quais são as consequências de se ter uma sociedade em que ter é mais importante do que ser? Não sou uma fanática anti-americanista, mas estão aí os EUA e sua sociedade de consumo para nos servir de exemplo.

Os economistas políticos diriam que o consumo é fundamental para a manutenção e o avanço do capitalismo. Aqueles com mais cara de pau diriam que se o capitalismo é ruim, os outros regimes de esquerda eram piores. Lógico que a tudo se pode justificar com falácias e desonestidades intelectuais. Eu acho, sim, que as pessoas têm que ter poder aquisitivo, têm que poder comprar coisas que são supérfluas, porque a vida não é feita só do suprimento das necessidades básicas. Mas me preocupa enormemente os indivíduos que vêm construindo a sua identidade em função das coisas que eles têm. Porque nunca, mas nunca se tem o suficiente; comprar é uma bola de neve e sempre há novos produtos, sempre há novidades, sempre há marketing, propaganda e uma série de coisas a nos incentivar a ter mais coisas. E quando nosso poder aquisitivo não permite ter mais coisas? Como fica essa nossa identidade que foi toda fundamentada em cima do ter coisas?

E as outras questões, aparentemente secundárias: para onde vão as coisas que descartamos? Vamos andar sobre um mundo de entulho, porque não haverá alternativa senão espalhar nosso lixo pela superfície toda do planeta? E as outras questões ambientais, sacrificadas para alimentar o processo produtivo? Extrações e desmatamentos absurdos? E a Usina do Belo Monte, que é necessária para dar conta do aumento de consumo energético do país? E as outras dezesseis usinas previstas para serem construídas na região amazônica?

É exatamente a cultura do ter é melhor do que ser que faz com que as pessoas apóiem gente como o Aldo Rebelo que diz que enquanto o Brasil tiver gente passando fome,  não dá para se pensar em preservação ambiental. Obviamente o deputado se baseia numa das mais falsas premissas desse mundo, de que a produção de alimentos só é possível com desmatamento e destruição ambiental. Esse golpe sujo do deputado só fornece argumento para aqueles em que só pensam no desenvolvimento industrial do país: quem quer continuar produzindo e lucrando; e aqueles cidadãos feitos de ter que só pensam no que precisam comprar, a ponto de terem perdido o senso crítico. Está mais do que comprovado que o Brasil tem áreas suficientes para agropecuária sem sacrificar suas reservas naturais.

O lobby todo funciona para que se aprove a produção das hidrelétricas, hoje o único modelo que se acredita sustentável para a grande demanda energética atual e futura. Para que o país continue produzindo bens de consumo, para que as pessoas continuem comprando e para que ninguém jamais se desenvolva enquanto ser humano que é e questione nada.

Essa cultura do ter é uma grande armadilha para os seres humanos, não apenas em termos econômicos e ambientais. Estamos criando uma geração de pessoas cuja própria essência se baseia no ato da compra. Pessoas cuja capacidade crítica vai sendo obnubilada pela compulsão da aquisição. E as pessoas vão se tornando vazias por dentro, vão aumentando os casos de depressão, transtorno de pânico e ou ansiedade e assim por diante. A pressão sobre o “ser bem sucedido” é imensa, porque só ela nos permite ter. E a atual definição de “bem sucedido”, perversamente calcada na capacidade aquisitiva?

E quando a gente não puder mais ter? Quando o dinheiro for pouco? Pior ainda: e quando nos dermos conta que ter é insuficiente?

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22 respostas para Sobre ter e ser

  1. Letícia disse:

    Genial a reflexão proposta Renata. Me deixou transtornada e até meio triste pq me sinto impotente. Parábens pelo texto.

    • Renata disse:

      Letícia,
      é, eu também me sinto assim, impotente. Tanto vítima quando parte ativa desse sistema maluco.
      beijos

  2. Marcella disse:

    Todo mundo tem um buraco na alma… cabe cada um escolher como preencher.Alguns usam drogas,comida,sexo,dinheiro,consumo,álcool,jogo…make up ,enfim..O ter é mais importante do que o ser, quando você ainda não percebeu que esse buraco na alma não se preenche com todas essas coisas… esse que é o desafio.
    Não existe fome no mundo, existem países mal administrados e outros bem administrados.O mal do mundo de verdade, é quando as pessoas dão de ombros achando que o problema não é delas.Um dia o problema que você acha que não é seu vai bater na sua porta.É muito mais fácil para a esmagadora maioria das pessoas concordar com uma asneira dita por um político do que questionar o que realmente” pega”.Pensar dá trabalho….Um grande beijo, Rê,boa semana!

    • Renata disse:

      Marcella,
      é que a grande maioria opta pela vida de gado. Assim não dói.

      beijos e obrigada :)

  3. Bruna Brasil disse:

    Nossa, sem palavras!
    Você colocou tudo de uma forma extremamente crítica, imparcial e correta. A unica coisa que me resta é compartilhar, para que outras pessoas possam refletir sobre o ter e o ser. Obrigada novamente pelo justissimo texto. Beijos!

  4. Amanda Rua disse:

    Renata,
    Vou te contar um causo que me incomodou mto: minha mãe trabalha numa ONG, e um dos trabalhos sociais é ressocializar crianças sem recursos (ex.: filhos de pais dependentes químicos, de moradores de rua, etc). Eles oferecem atividades educativas, esporte, etc. Numa destas atividades, foi proposto um passeio às crianças, sendo que as próprias escolheriam o lugar. Sabe o lugar escolhido??? (Veja bem, moro no RJ, cheio de lugares lindos). As crianças escolheram conhecer um Shopping (segundo elas, queriam “andar de escada rolante”, “conhecer como eram as lojas”, etc) !!! E assim foi feito, fizeram o tal passeio.
    O que mais me choca não é as crianças desejarem isso. É ter adultos que estão fazendo um trabalho dito social e que acham perfeitamente natural e adequado que elas valorizem isso. E ainda acham que estão ajundando muito estas crianças! De nada adiantou eu explicar à minha mãe que eles estão alimentando uma cultura de valorização do consumo, do “ter ser melhor que o ser”, em crianças que não tem nem o básico do básico. Ainda tentei sugerir o cinema ou teatro do shopping, mas nada adiantou. E pra encerrar, teve o óbvio lanchinho no Mc Donalds….
    Veja bem, eu adoro shopping! E até acho que hj não dá pra escolher “não consumir”. Mas dá pra exercer um consumismo consciente, comprar de marcas que valorizem o fator humano, a ética, a ecologia, que não photoshope mulheres de 60 para parecerem de 20, não teste em animais, não escravize mão de obra e por aí vai…
    Parabéns pelo texto! Fico impressionada, vc discorre de Perfume, Corretivo, a temas sociais, com a mesma inteligência, clareza e naturalidade….
    Bjoks

    • Renata disse:

      Amanda,
      triste, né? A vida das crianças gira TANTO em torno da falta que se constroem até sonhos e aspirações em torno dela. Falta comida, falta roupa, falta dinheiro sempre. Obviamente que essa é a falta mais sentida, porque não sei o quanto eles conseguem perceber da falta mais profunda, que se reflete na educação, na moradia… E daí obviamente, a primeira vontade é suprir essa falta através do consumo imediato – ou que seja do sonho de consumo que representam os shoppings.

      Mas, você diagnosticou bem o problema, que está nos adultos que não perceberam que por trás desse desejo das crianças, existe a falta trágica – e que essa falta jamais será preenchida pelo consumo, nem quando – e se – essas crianças um dia puderem ser consumidoras.

      beijos e obrigada :)

  5. Renata
    Moro em Porto Velho-RO há 3 anos e meio…quando cheguei aqui a cidade não tinha NADA. Hoje, pouco tempo depois, crescem os restaurantes, franquias, já temos um shopping e tudo está sempre LOTADO. Motivo: o boom decorrente da construção de duas Usinas no Rio Madeira e, por consequência, mta gente sarisfeita pelo acesso aos bens materiais.
    Acontece que, como veio também vai e, já se noticia a redução das vagas para os trabalhadores que “invadiram” a cidade…Eu te juro que começo a temer pois o que vai ser dessas pessoas a hora que tudo isso acabar?? O que vai ser dessa cidade? E sabe o que é o pior: destroem a floresta, desalojam a população ribeirinha a troca de maior desevolvimento NO SUDESTE rsrs Ou seja: a energia produzida em Jirau e Sto Antonio não ficará aqui…mas os resquicios das obras sim, e daí só Deus pra dar conta…
    Ótimo post…como sempre. Precisamos seempre nos lembrar do SER…sempre.
    Beijo

    • Renata disse:

      Carol,
      infelizmente, nem precisamos pensar muito para saber o que vai ser da cidade: é a crônica de uma morte anunciada. Os levianos desenvolvimentistas sagazmente se furtam a pensar ou a deixar que sejam discutidas essas questões: depois do boom que provoca a construção, o que será da cidade? Sem falar, como você bem mencionou, nos dados eco-ambientais.

      Assim como o 1o Mundo trata o Brasil, o Sudeste brasileiro trata os outros estados deste país.

      E daí, nem Deus dá conta, eu acho….

      beijo grande

  6. Clara disse:

    Pois é, Renata. Temos que lutar e nos policiar para não deixar que essa mensagem penetre nossas mentes como um mantra… Essa ideia maldita que tentam nos enfiar goela abaixo de que não podemos sobreviver sem 17384957198347598137451734517834178934789713465786928027073482 coisas.

    Parabéns pelo post ^^

    • Renata disse:

      Pois é, a cada dia são lançados mais produtos “imprescindíveis” para a nossa vida. E nós vamos nos tornando escravos destes produtos, do consumo e do trabalho. Porque haja trabalho para dar conta de tamanho consumo…

      beijo!

  7. Ale Lima disse:

    Onde eu assino,Rê ?
    Vivo isso na prática aqui na selva !
    Sensacional esse post…O mundo está esquecendo de SER !

    Bjs !

  8. Camila disse:

    Renata, acho q vc vai gostar bastante desses videozinhos aqui, foram bem feitos e não têm tom de sermão: http://storyofstuff.org/cosmetics/

    Depois daquele caso da Zara, andei pensando e tive algumas conclusões. Cheguei a comentar com vc sobre aquele video da RAI falando do made in Italy, lembra? Escrevi aqui: http://boletimdeestilo.blogspot.com/2011/10/dificil-missao-de-comprar-de-modo.html

    Acredito que o ponto nevrálgico dessas questões estejam em 2 defeitos da humanidade: orgulho e egoísmo. É impressionante, mas tudo decorre daí, já fiz o teste. Se todo mundo se trabalhasse um pouquinho para reduzir esses defeitos, daria resultado. Bjs

    • Renata disse:

      Sendo egoísmo o pior, acho. E mais difícil de corrigir.
      Ótimo vídeo, Camila, obrigada por compartilhar.

      beijos

  9. Camila disse:

    De nada, esse é o tipo de informação que merece ser repassada. Eu que agradeço a disponibilização dela no seu blog. Bjs

  10. sony disse:

    Oi Renata….é muito difícil tornar-se um “SER”, demanda tempo, investimento, tolerância, paciênca, abrir mão de parte do narcisismo e suportar as frustrações.
    Vivemos tempos psicotizantes, somos bombardeados por uma enxurrada de informações e não se consegue processar tudo…então…a gente está sempre correndo atrás do prejuizo, tentando suprir as faltas existenciais com ” coisas”, sem se dar conta de que as faltas existencias não são preenchidas, na realidade somos seres finitos e incompletos.
    Aliás Sigmund Freud em sua genialidade, disse que o primeiro a acabar com nossa arrogância foi Galileu, qdo disse que era a Terra que girava ao redor do sol…depois foi Charles Darwin, e sua teoria da evolução dizendo do nosso parentesco com os primatas…e por último ele….qdo colocou que por baixo da capa da civilização…continuamos animais….vestindo Chanel….mas nada mais do que feras….
    Bjs

    • Renata disse:

      Parece que o buraco na alma de cada um vai se tornando cada vez mais profundo….

      beijos

  11. Rê, só queria dizer que seu post está excelente e que não vou comentar porque não vou conseguir dar alguma contribuição que preste neste momento de raiva e ódio do mundo e da humanidade… (rs)

    Beijos

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